segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O século das lésbicas






Os homens gay e as mulheres lésbicas têm sido aliados políticos no movimento LGBT sobretudo pela experiência comum como vítimas da homofobia. Mas antes de se descobrirem enquanto homossexuais, os gay e as lésbicas são socialmente formatados como homens e como mulheres. São criad@s como membros duma sociedade de e com género; uma sociedade onde a divisão masculino-feminino é apresentada como simétrica e complementar mas onde, na realidade, se perpetuam assimetrias e desigualdades. Uma delas é a definição do espaço público – a política, o trabalho, o uso da rua, a autoridade do estado, a predação
sexual, etc – como masculino, e a definição do espaço privado – a casa, a família, a reprodução, a educação, a prestação de cuidados, o recato sexual, etc. – como feminino.

É certamente graças ao poder masculino que os gay obtiveram mais rapidamente reconhecimento público nestas últimas décadas. Dentro da invisibilidade LGBT existe uma invisibilidade lésbica acrescida. Nem é preciso pensarmos nos Prides, nos bares, na definição de zonas urbanas gay, nos nichos de mercado, etc. Basta vermos como a cultura popular mainstream começou a integrar personagens e estéticas gay mais do que lésbicas. No filme «Mamma Mia» a personagem do hipotético pai gay surge encaixada como perfeitamente plausível e é apoiada pela própria estética do filme – e da música dos Abba, claro – ambas de
clara influência gay e camp. Difícil seria imaginar personagens lésbicas naquele filme, ou uma estética lésbica, que resultasse para “as massas”. É claro que as coisas mudam.

E também na cultura popular e mediática – de Ellen Degeneres a «The L Word». Mas mudam mais devagar e com menos impacto. Tal deve-se à subalternização das mulheres e por isso se diz, e com razão, que as lésbicas são duplamente discriminadas – como mulheres e como lésbicas.

A ironia trágica disto é que o movimento LGBT só teve condições para se lançar porque antes dele houve um movimento feminista que questionou a ordem de género e no qual a influência lésbica foi central. Como quem ajuda a criar meninos mimados que depois se impõem, muitas lésbicas viram o movimento transformar-se em movimento gay masculino. Prosseguiram, talvez por isso, estratégias “femininas” de socialização e solidariedade: mais ocultas, mais baseadas nas redes pessoais e de afectos. Mas a verdade é que a produção de pensamento sobre a sexualidade (um exemplo maior: Judith Butler), a imaginação de outros mundos (uma rica literatura lésbica foi ocultada por uma literatura gay consagrada pelo sistema) e a
experimentação de formas alternativas de vida (exemplos maiores: o baby boom lésbico, ou a  ideação de formas de família baseadas nos critérios da escolha e do cuidar) são património das lésbicas. O século XXI assistirá ao florir dessas transformações “silenciosas” lideradas pelas lésbicas. Bem como a outras, mais “ruidosas”, pelas gerações de raparigas aguerridas que já não permitirão a hegemonia gay/masculina nos espaços, vivências e políticas LGBT.

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