Na porta do cemitério Lana se despede de alguns presentes.
Entra no carro e sem saber muito bem como, acorda de fronte ao portão da chácara!A cachorra lhe “sorri latindo”.
Sobe a rampa feita de pedras de rio e os degraus da escada da varanda servem de amparo para o seu desfalecimento programado.
Chegara o seu grande momento de desabar !
O peito foi inflando e uma pressão subiu pela goela desaguando dos olhos...
Nada existia naquele momento ao seu redor.
Curvou seu corpo por sobre a escada lateralmente enrrodilhando-se com os braços.
Quanto mais ela apertava mais se perdia num vazio futuro impregnado de fantasmas...de detalhes...
A cadela por empatia, deita ao seu lado.
Lana sumia dentro de si!
Ao longe se escutava a alegria de alguns pássaros.
O telefone toca lá de dentro da casa.
Compelida pelo som estridente consegue chegar até a porta e abri-la.
Os ares da casa lhe envolve.
Trêmula, avançou para o tapete feito de sisal em tom azul que combinava com tudo, esmurrando-o, e ,quando a dor entorpeceu seus braços, o choro compulsivo tomou conta de seus ouvidos reverberando da casa.
Imolada. Dor e drama. Drama e cenas...
E cenas tantas foram revividas enquanto a dor a hipnotizava nos detalhes:
“- ia ontem mesmo, quando Mariana chegou correndo da horta toda avermelhada com uma braçada de cenouras ridiculamente minúsculas. A colheita da horta feliz de um ano de casa nova!
Do gramado chegava a risada de Mariana com os rosnados da cadela. Arriscando um olho um pouco mais para o passado, Lana dá de cara com as duas rolando varanda afora sem nunca, aparentemente, ter uma vencedora mas a cadela sempre acabava por cima de Mariana lambendo sua cara..”
Adentra por este túnel confortável e as vê abraçadas dançando um sambinha em frente ao primeiro carro zero, espiando pelos lado para terem certeza que não são observadas na suas frajolices...
- Só no sapatinho... só no sapatinhoooooo
Lá da churrasqueira surge a imagem de Mariana com os braços em cruz sobre o peito piscando para Lana com aqueles olhos enormes e verdes!
Teve aquela noite fria que comemoraram a decoração da sala. Velas acesas com suas luzes direcionadas para o aquário cintilando-o.
Vinho, queijo, cobertores e Ella Fitzgerald cobrindo o silêncio. Tinha incenso de rosas queimando...
E da ponta da garagem, com a bucha lavando o carro, Lana espia Mariana a saltitar tentando pegar a mangueira d´agua que chicoteia no gramado...
Inda da cozinha escuta-se “uma pena caindo ao chão”, é a vasilha onde continha a lasanha espatifada em cacos por todo o chão. Uma zona! E Mariana? Recostada na pia morrendo de rir com o que restou do almoço nas mãos: o guardanapo de pano!
Ecoa em seu cérebro a voz grave de Mariana vinda lá do quarto:
- Baxinhaaaa.Magina que tou tramando?...
Um alvoroço no jardim, faz com que a cadela se embale porta afora, e Lana saí do torpor rolando no tapete. Fica de barriga para cima observando o teto. Percebe uma teia de aranha num cantinho. Fixa seu olhar no xaxim com sambambaias portuguesas, um de vários que emolduram a sala.
Naquele exato momento Lana soube que muito ainda haveria de amargar na sua solidão por ter feito de Mariana nesses longos vinte e dois anos de convívio sua única interlocutora, critica , ouvinte ...a sua voz...
Quanta vezes Lana ainda faria o prato predileto de Mariana aos domingos?
Também haveria bônus: nunca mais teria que ficar pegando as roupas de Mariana pela casa, seus bonés, muito menos ficar limpando os cinzeiros!
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Os dias caminharam lentos e doloridos depois que suas canetas ficaram seu uso.
As mesmas malditas canetas que Lana encontrava por todos os cantos da casa!
As mesmas malditas que hoje Lana vive a polir com esmero na esperança de tocar nos dedos de Mariana...


3 comentários:
Lindo texto, apesar de triste. É bom voltar querida...Depois de tropeçar em algumas pedras pelos caminhos, retorno com amor, pra suavizar as feridas com a sua poesia...Bjs.
Nossa Yarinha...Triste mesmo! Nunca perdi ninguém + deve ser +ou- assim...Viajei!
Bom carnaval.
Bjos
Doído...A morte as xs nos faz zumbi.
Abços
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